REPRESENTAÇÕES LITERÁRIAS DE MATO GROSSO: O EUROPEU, O LATINO AMERICANO, O BRASILEIRO E O MATO-GROSSENSE

 

Maria Adélia Menegazzo – UFMS

 

 

Considerado ainda por muitos como um espaço longínquo, uma terra pouco povoada, Mato Grosso do Sul assim se revela aos olhos do “estrangeiro” segundo uma leitura e um discurso fundamentados em formas estereotipadas.

Nosso objetivo é demonstrar que as representações literárias desse espaço geográfico passam constantemente pela imagem binária, paraíso/inferno, quer se trate de textos ficcionais ou funcionais. A identificação dessas representações adquire importância na medida em que o debate sobre uma identidade cultural para o Estado atinge seu limite. Politicamente, Mato Grosso do Sul existe há 23 anos e sua história se confunde, porque se funda, com a história de Mato Grosso. Este ser e não pertencer provoca questões muito mais profundas e uma divisão meramente territorial não dá conta de solucionar.

Chegar a uma identidade significa encontrar diferenças, que nada mais são do que uma identidade enraizada em solo próprio, separada de outras identidades. Ao mesmo tempo em que a diferença isola, o receio de ficar só é superado pelo delineamento identitário. Frente ao Outro, os limites se definem e se superam.

Em pesquisa iniciada em 1997, acerca de Mato Grosso como espaço ficcional, trabalhamos com a hipótese de que os relatos das expedições científicas do século XIX, principalmente a de Langsdorff, construíram estereótipos reconhecidamente naturalistas que permanecem, com poucas alterações, até os nossos dias. Nosso trabalho recuperou imagens presentes na obra de autores que compõem a tradição literária brasileira, daqueles que fazem repetir o estereótipo e os que exploram imagens marginais, cuja ficcionalidade imprime um caráter estético que supera o documental, ainda que se possa falar em identificação ou descrição do referente.

Pretendemos agora, demonstrar como essas imagens permanecem, contrapondo textos recuperados naquela primeira etapa com outros autores e nossas atuais reflexões. O olhar do Outro como constitutivo de uma identidade que se inicia com o europeu, passa pela fronteira latino-americana, pelo eixo cultural brasileiro e termina em seu próprio território.

 

O olhar europeu: Hércules Florence e Lévi-Strauss

 

Publicada em 1875, Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas[1], de Hércules Florence, é obra representativa do olhar europeu, uma vez que o autor era membro da comitiva de Langsdorff, que percorreu o interior do Brasil nos anos de 1825 a 1829. Florence passou por todas as dificuldades comuns às expedições que buscavam conhecer o território brasileiro, no século passado. Além de apresentar características de um diário, Viagem traz por volta de 300 desenhos de aspectos da realidade, reforçando o papel do narrador como um “naturalista”, cuidadoso e minucioso nos detalhes observados.

Florence não deixa de apreciar a paisagem brasileira a partir de sua visão européia, mesclando imagens de encantamento, decepção e, até mesmo, de nostalgia, o que se observa quando se defronta, por exemplo, com o salto de Urubupungá, durante a viagem para Cuiabá:

 

O sentimento que experimentei, ao contemplar vasta extensão d’água e a riba distante, lembrou-me o abalo que recebe o viajante quando divisa mar alto, as costas que demanda. Se essa terra é a França, então seu coração estremece jubiloso ao pensar nos gozos já próximos que lhe franqueia aquele belo país, tão adiantado em civilização. Aqui, porém, só podíamos ver selvagens e míseras tocas, espetáculo ainda assim cheio de interesse e novidade para quem quer estudar o homem em seu tipo primitivo. (p.53-4)

 

As expressões grifadas ressaltam o contraste entre o civilizado europeu e o primitivo homem americano. Neste confronto, prevalece o interesse pelo desconhecido, o espírito desbravador do expedicionário. Assim, a superação da falta de civilidade é dada pela exuberância natural de um espaço visto como exótico.

Não deixa, porém, de intervir rigorosamente na avaliação do que via, o parâmetro europeu, como, por exemplo, quando descreve a população de Camapuã:

 

O sítio é agradável; as cercanias montuosas e capazes de muita fertilidade. São bosques, cerrados, vales e chapadas. Os campos ficam mais afastados. Extrema é a miséria dos habitantes. Pelos bens que possuem, pouco distam do estado selvagem, mas nem por isso são ou se consideram mais felizes. (...) nem sequer possuem um monjolo, a máquina mais estúpida que jamais foi inventada e que é de uso no interior do Brasil para com o emprego da água pilar o arroz e o milho. (p.74-5)

 

As imagens da natureza são descritas visando uma figuratividade representativa do espaço real. Nesse processo descritivo, a natureza é refeita em imagens paradoxais, tensas, onde, ao lado do “paraíso” encontra-se o “inferno”, o perigo, o desconforto. A imagem do Pantanal, por exemplo, é inicialmente construída com dados precisos de localização cartográfica, observando que

 

O País é uma imensa planície que começava a ser inundada pelo transbordamento do Paraguai, em cujas cabeceiras já haviam caído chuvas. É aí que começa o vasto Pantanal (...) Essa vasta zona encharcada vem assinalada por muitos geógrafos debaixo da especificação de Lagoa dos Xaraies ou Laguna dos Xaraies.(p.98)

 

Seguindo o relato, no entanto, a imagem é obtida por meio de elementos comparativos da cultura européia:

 

Além ficava um campo de arroz de dois pés de altura, campo vastíssimo, a perder de vista e de um verde belíssimo. Alguns grupos de árvores se destacavam aqui, ali, na esplêndida alfombra, madeiras de tronco liso e direito como fustes, cuja folhagem se expandia à maneira das chapeletas dos cogumelos. (p. 99 - grifos nossos)

 

Como se pode perceber, as palavras grifadas remetem primeiro à idéia de um tapete (alfombra), mesmo que se refira diretamente a um tapete natural, de relva, depois, à linha reta das colunas de edifícios construídos (fustes) e, em seguida, ao desenho de algo com dimensões inversamente proporcionais, porém muito caro aos franceses (cogumelos). Assim, mesmo estando diante de imagens que lhe são desconhecidas, ou talvez por esse mesmo motivo, o referencial ideal para avalia-las está na cultura do país de origem.

O narrador revela ainda que o desconforto pode aparecer nas precárias condições de que dispunham para enfrentar um território ermo e desconhecido:

 

Uma vez erramos o caminho e não o achamos senão a custo, porque há muitas batidas de animais. Não podendo mais de calor, fizemos descanso por volta de 3 horas num lugar chamado Barranco Alto à beira da baía, cujas águas são aí mortas. Tínhamos tenção de lá passar a noite, mas como deixáramos os cortinados em Cuiabá, não pudemos resistir aos mosquitos e à meia-noite fizemo-nos de partida. (p.213)

 

O sentimento disfórico, no entanto, não destrói a necessidade descritiva. O relato de Florence refaz a primeira etapa da expedição Langsdorff, quando ainda estava imbuído do olhar europeu. Segundo Boris Komissarov[2], há outras versões dos diários, feitas por Florence, em Campinas, a partir de 1837, que apresentam leituras diferentes de relatos anteriores, o que o autor atribui a um olhar já abrasileirado por parte do autor de Viagem fluvial...

Dando continuidade ao nosso trabalho, selecionamos programaticamente algumas passagens do livro de memórias de Claude Lévi-Strauss, Tristes trópicos, primeiro pelo impacto que a obra causou no Brasil, quando de seu lançamento, em parte por nos dar a conhecer a nós mesmos, segundo, pelo olhar crítico do estrangeiro sobre nossas relações para com a natureza e nossos índios e, por último, pelo fato de o etnólogo ser, de algum modo, um viajante do século XX, descritor e narrador de uma dada realidade.

Nesse sentido, restringimos nossa leitura à quinta parte de Tristes trópicos[3], capítulo XVIII, intitulado “Pantanal”. Do mesmo modo como observamos no relato de Florence, Lévi-Strauss mistura em seu texto, escrito em 1955, 15 anos após sua última visita ao Brasil com objetivos etnológicos, momentos de descrição objetiva e outros em que o narrador se encanta com as imagens observadas, o que fica evidente logo no início do texto quando reflete sobre o nome do Estado de Mato Grosso:

 

Muitos viajantes cometem um contra senso traduzindo Mato Grosso por ‘grande floresta’: a palavra floresta é substituída aqui pelo feminino ‘mata’, enquanto que o masculino exprime aspecto complementar da paisagem sul-americana. Mato Grosso é, então, exatamente, ‘grande vegetação’; e nenhum termo poderá ser mais apropriado a esta terra selvagem e triste, cuja monotonia oferece alguma coisa de grandiosa e admirável. (p.185)

 

De imediato já podemos observar o olhar traduzido em paradoxo pelos adjetivos “selvagem e triste”/ “grandiosa e admirável”.

A descrição do Pantanal segue, assim, a mesma linha de Florence. Num primeiro momento, o autor se limita a pontuar geograficamente o território: “Imediatamente após Aquidauana, entra-se no Pantanal: a maior área alagada do mundo, que ocupa a bacia média do Rio Paraguai” (p.186). Em seguida, outro é o foco narrativo. A imagem torna-se tão “grandiosa e admirável”, como anteriormente o autor observara, que se torna necessário, inclusive, abrir o ponto de vista para uma tomada aérea:

 

Vista de avião, esta região de rios serpenteando através das terras planas dá um espetáculo de arcos e de sinuosidades onde as águas param. O próprio leito do rio aparece contornado de curvas pálidas, como se a natureza tivesse hesitado de dar a ele o seu traçado atual e temporário. Sob o sol, o pantanal torna-se uma paisagem de sonho, onde as tropas de zebus se refugiam sobre as arcas flutuantes no alto dos morrinhos; ao mesmo tempo em que nas baías submersas, os bandos de grandes aves: flamingos, garças, garcinhas, formam ilhas compactas, brancas e rosas, menos plumosas ainda que as frondosas palmeiras em leque do carandá que secretam em suas folhas uma cera preciosa, e cujos bosques esparsos rompem sozinhos a perspectiva falsamente alegre deste deserto aquático. (p.186)

 

O afastamento do ponto de vista, no entanto, parece favorecer o encantamento do narrador para com a paisagem propiciando a interferência da fantasia nas imagens que, embora traduzam uma perspectiva eufórica, finalmente recobram a tensão através da interferência negativa das palavras finais e, principalmente, do oxímoro deserto aquático.

Do mesmo modo são vistos os habitantes de Porto Esperança que, segundo o autor foi mal nomeado, pois não persiste em sua memória local mais bizarro na face da terra. Trata-se, segundo ele, de um absurdo geográfico e humano que se exprime comicamente:

 

Nenhuma outra população senão os trabalhadores da linha [férrea]; nem casas de outros que não as deles. Estas são barracos de madeira construídos em pleno pântano. Chega-se a elas por meio de pranchas instáveis que atravessam a zona habitada. (p.187)

 

Um lugar de difícil permanência e inaceitável para o civilizado europeu, que por aí passa com o objetivo único de contatar a aldeia Lalike, dos índios caduveo.

Mas nem todos os desafios estão aqui descritos. Como na expedição Langsdorff, outros obstáculos se apresentam ao viajante:

 

As noites são penosas: o calor ligeiramente úmido, os grandes mosquitos dos alagados que assaltam nosso refúgio, os mosquiteiros cuja concepção sabiamente estudada antes da partida se revela ineficaz, tudo contribui para tornar impossível o sono.”(p.188)

 

O que se verifica na comparação dos dois textos, o de Florence e o de Lévi-Strauss, é a conjunção de um mesmo olhar que, embora busque as diferenças culturais, constrói-se a partir de conceitos e parâmetros civilizatórios que fatalmente não serão encontrados. Mais do que isso, tanto um autor quanto o outro, revelam, por vezes, uma posição etnocêntrica, através de comentários enviesados sobre o nosso “atraso” em relação a sua cultura. Por outro lado, isso não invalida o caráter documental desses textos.

 

O olhar latino-americano: uma inversão de foco

 

Primeiramente, é preciso observar a situação de fronteira do Estado de Mato Grosso do Sul com o Paraguai e a Bolívia. Essa convivência fronteiriça revela-se na adoção de costumes que vão da alimentação ao vocabulário, da música à dança, entre outros.

No início do século XX, o Brasil já havia definido quase todas as suas questões de fronteira. No entanto, para se compreender a história dessa área em Mato Grosso do Sul, é preciso, segundo Corrêa[4], resgatar todo o processo de luta pela posse da terra. De acordo com o autor, primeiramente a guerra da Tríplice Aliança e depois o monopólio da Companhia Mate Laranjeira (ficcionalizada por Hernani Donato em Selva trágica), as manifestações separatistas, as guerras entre coronéis, a presença ostensiva de paraguaios e um “banditismo endêmico”, firmaram o caráter estrangeiro dessa fronteira, contrariando o discurso oficial das primeiras décadas e sua ausência na região. Esse quadro poderia explicar a consolidação do estereótipo de uma terra de ninguém, além das imagens preconceituosas de ambos os lados da fronteira.

Na literatura brasileira, o relato do Visconde de Taunay, A retirada da Laguna, é revelador do significado da chamada Guerra do Paraguai para a constituição de um estereótipo de mão dupla.

Uma boa descrição do significado ambíguo da presença paraguaia na cultura sul-mato-grossense encontra-se na crônica de Abílio Leite de Barros[5], intitulada “O jeito aparaguaiado de ser vaqueiro e a cultura pastoril platina”, que integra o volume Gente Pantaneira (Crônicas da sua História):

 

Nós costumamos cultuar as nossas origens mais ilustres e, inconscientemente, ocultar as mais humildes. A ancestralidade guarani estaria na linha das mais humildes. Além disso, a imagem dos paraguaios tinha conotações negativas, ligadas ao banditismo entre os homens e prostituição das mulheres. Acrescente-se a derrota na guerra, psicologicamente também humilhante. (p.215)

 

Como se pode perceber, o autor busca em mecanismos psicológicos uma primeira explicação para a rejeição cultural. Totem e tabu, positivo e negativo, inferno e paraíso são os elementos que se articulam nessas relações e que se manifestam discursivamente.

Nesse sentido, prossegue o autor com seu relato por meio de antíteses: “A imagem negativa do paraguaio envolta em fantasias e exageros, tinha entretanto sua origem em fatos reais de banditismo, particularmente na fronteira”(p.217). O paradoxo envolve a imagem que se funda a partir da “fantasia”, do “exagero”, mas que tem origem também em “fatos reais”. As imagens positivas que se encontram pelo texto, conferem à crônica um ritmo contrapontual, que equilibra de certo modo a narrativa sem, no entanto, dissolver a tensão. Em outras palavras, o conflito permanece, mesmo quando se permite estar do outro lado com imagens de aceitação:

 

No lazer, é flagrante a influência de nossos irmãos guaranis. Deles adotamos o tereré, o gosto pela dança, as festas, o baile com aqueles alegres gritos no salão, o gosto pelas corridas de cavalo e o truco espanhol. Particularmente, deles adotamos a música: a polca de ritmo rasqueado. (p.217)

 

É necessário ressaltar que muitos outros aspectos do cotidiano de Corumbá e de seus habitantes são evidenciados nesta crônica, que poderíamos resumir como um mapeamento de relações culturais e afetivas.

De uma certa forma, os exemplos que estamos utilizando demonstram a permanência de um resquício colonialista perpassando o discurso literário e suas representações, na medida em que os textos utilizados têm sua origem no testemunho, são relatos, memórias e crônicas, portanto, discursos que delineiam, além de identidades, também subjetividades.

 

O olhar brasileiro: a permanência do encantamento

 

O mesmo olhar estereotípico e paradoxal que é dirigido a Mato Grosso pelo viajante estrangeiro, passa a ser recebido do brasileiro de outras regiões. Macro e micro espaços se reorganizam a partir de um único ponto que ao mesmo tempo fascina e aterroriza. O espaço exótico e tropical possui um encantamento que supera a realidade.

O romance de Antonio Callado, Sempre viva[6], é um bom exemplo de utilização do estereótipo como arcabouço do espaço ficcional. Exatamente por se constituir enquanto imagem estereotipada exótica, excêntrica, transforma-se em um espaço onde tudo é permitido, onde nada é regulamentado, onde ninguém se submete à ordem ou à lei. Ficcionalmente um recurso dos mais interessantes. Trata-se de um romance de aventuras que, no entanto, possui um referencial histórico preciso: o período da ditadura militar no Brasil. O autor se permite fusões temporais e espaciais, destruindo toda possibilidade de uma ordem linear na narrativa.

A história se passa em Corumbá, fronteira com a Bolívia, espaço descrito com os elementos mencionados por Corrêa, citados anteriormente: o banditismo, o coronelismo, o contrabando, a ausência de leis. O caráter realista do texto permite o emprego da natureza como mediadora dos sentimentos ambíguos da personagem Quinho, como ocorre no início do capítulo 3:

 

(...) quando se aproximou mais do portão – onde de pronto percebeu, nervoso, soldados brasileiros, que não via há tantos anos – o crepúsculo ensangüentava, no imenso prado plano do Pantanal, o rio Paraguai e as mil lagoas-corixo que ele deixa ao puxar para si as águas que espalhou durante a enchente. Pior ainda do que seu pesadelo de inda há pouco, a árida terra do Brasil o recebia ao cabo de dez anos com um crepúsculo exagerado de tão sangrento, composto, de propósito, devia ser, com o sangue a redimir de Lucinda. (p.19).

 

O olhar observador do narrador, ao mesmo tempo em que traduz o ressentimento do exílio, projeta o desejo de vingança anunciada pela natureza.

Essa apropriação da natureza como cenário desdobra-se a cada movimento da personagem, a denotar proteção e desamparo, favorecendo a construção de imagens paradoxais:

 

(...) Quinho sentiu, na rua, o calor que fazia, malévolo, exagerado para ser aceito assim sem mais nem menos intencional como se todas as alpacas da Bolívia tivessem sido, por mãos enormes, esfoladas, a lã transformada no gigantesco abafador de bule de chá que baixara do Altiplano para pousar, com surdo baque e mortal aconchego, sobre Corumbá. Alguma coisa devia estar para acontecer (...) (p.57)

 

O caráter múltiplo e variável dos elementos temporais e espaciais na narrativa vai sedimentando marcas de identificação do locus fronteiriço, e permitirá, até mesmo, a presença do fantástico, através da personagem Herinha.

A leitura desses textos nos permite afirmar que se há uma cumplicidade na manutenção do estereótipo, um olhar que de todas as direções converge para a determinação de uma identidade espacial calcada no binômio inferno/paraíso, também há outro tipo de olhar que busca reconstruir o caminho a partir de fragmentos desse mesmo estereótipo, reinventando-o. É o caso dos textos de Guimarães Rosa, presentes em Ave Palavra[7], referentes a sua viagem a Mato Grosso.

Em Sanga Puytã, temos uma reportagem poética que percorre o caminho da Retirada da Laguna pelo avesso e, nesse “senso inverso”, os estereótipos são desconstruídos. Em Nioaque o relator inscreve:

 

Envelhecem, nesse redor, as ferrenhas furiadas – pilhagem, massacre, incêndios. A História se rarefaz. O que ficou plantado foi um marco votivo: entre mangueiras e palmeiras, cercaram um gramado retangular, em que pedras amarelas inscrevem um losango. O ‘jardim’. Semelha singela bandeira nacional, horizontalmente estendida: a terra como símbolo da bandeira. (p.933)

 

Ao afirmar que a história se “rarefaz”, as marcas da violência da guerra diluem-se dando lugar a uma “singela bandeira”. O símbolo da pátria mãe gentil, amplia-se e transforma-se na grande-mãe, a terra.

Procedimento semelhante ocorre na descrição, na fronteira com o Paraguai, da mestiçagem cultural, enquanto confronto e diálogo, que não revela um estado, mas uma condição, uma tensão que não pode ser resolvida, conforme Laplantine & Nouss[8]. Guimarães Rosa imbui-se do papel “dos viajantes” ao relatar:

 

Para a banda de lá, onde há escolas e colégios, passam os meninos brasileiros. O Paraguai individualizado, talvez já pronto, é extravazante; o Brasil, absorvente, digeridor, vai assimilando todos os elementos, para se plasmar definitivamente. Às vezes, aqui ou ali, há refluxos. O Território, por exemplo, re-brasileirou, de repente, muita coisa. Onde antes só se bebia mate e se bailava ao som da polca e do santa-fé, passaram a tomar café e dançar samba. (...) Mas tudo se passa num estilo harmonioso e convivente. (p.935)

 

O jogo sonoro aliado às trocas espaciais aqui/lá, e ao contraponto estravazante/absorvente resultam em uma outra imagem fronteiriça, onde a harmonia se impõe e se alastra.

 

O olhar mato-grossense: ser e pertencer

 

Se nos textos aqui apresentados, e rapidamente lidos, dada sua função, pudemos demonstrar a permanência de representações monomórficas e monossêmicas, resta-nos, ainda, apresentar o olhar que se autodefine. De um modo geral, a preocupação com a identidade reforça as marcas da diferença e não aceita passivamente a exclusão. Não se encontra nos produtores culturais sul-mato-grossenses a idéia de identidade como ato defensivo ou articulado pelo ressentimento. Pelo contrário, artistas, poetas, escritores, músicos, cineastas, teatrólogos e outros segmentos, definem as questões culturais a partir de um olhar plural apontando numa outra direção, delineando uma estética da identidade que vai além do estereótipo. De acordo com Barth[9], essa é uma forma aceitável de se construir uma identidade, pois os indivíduos da própria comunidade ou grupo elegem e decidem por quais indicadores desejam ser reconhecidos culturalmente.

A noção de pertencimento a uma tradição elimina as fronteiras político-geográficas, ao mesmo tempo em que provoca um reordenamento de suas origens. É o que busca o livro Gente pantaneira, de Abílio Leite de Barros citado anteriormente. É também o propósito do Grupo Guaikuru, que reúne artistas de todas as linguagens; da poesia de Emmanuel Marinho à música de Paulo Simões ou do Grupo Acaba. Os exemplos seriam muitos e certamente faltaria espaço para contá-los. Podemos, no entanto afirmar com Octavio Paz[10] que: “Aquele que se sabe pertencente a uma tradição implicitamente já se sabe diferente dela, e esse saber leva-o, tarde ou cedo, a interrogá-la e, às vezes, a negá-la. A crítica da tradição se inicia como consciência de pertencer a uma tradição”.

Transformo essa citação em epígrafe para que se reúnam as representações anteriormente apresentadas, vistas como estereótipos, com o Pre-Texto de Manoel de Barros[11] para o livro para encontrar o azul eu uso pássaros:

 

Que as minhas palavras não caiam de

louvamentos à exuberância do Pantanal.

Que eu não descambe para o adjetival.

Que o meu texto seja amparado de

substantivos. Substantivos verbais.

Quisera apenas dar sentido literário

aos pássaros, ao sol, às águas e aos

seres.

Quisera humanizar de mim as paisagens.

Mas por quê aceitei o desafio de glosar

esta obra exuberante de Deus?

Aceitei para botar em prova minha

linguagem.

Que eu possa cumprir esta tarefa sem

que o meu texto seja engolido pelo cenário.



[1] Hércules FLORENCE. Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas.Trad. Visconde de Taunay. São Paulo: Cultrix/Edusp, 1977. Todas as citações remetem a essa edição.

[2] Boris KOMISSAROV. Expedição Lagsdorff: acervo e fontes históricas. Trad. Marcos Pinto Braga. São Paulo: Edunesp; Brasília, DF: Edições Langsdorff, 1994 (Prismas)

[3] Claude LÉVI-STRAUS. Tristes tropiques. Paris: Plon, 1984. (Terre Humaine/Poche). A tradução das passagens selecionadas é de nossa autoria. Todas remetem a essa edição.

[4] Valmir Batista CORREA. Fronteira Oeste. Campo Grande, MS: Edufms, 1999. (Fontes Novas. Ciências Humanas).

[5] Abílio Leite de BARROS. Gente pantaneira. (Crônicas da sua História). Rio de Janeiro: Lacerda, 1998.

[6] Antonio CALLADO. Sempre viva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. As referências remetem a essa edição.

[7] In: João Guimarães ROSA. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 1994. Vol.II. todas as citações remetem a essa edição.

[8] François LAPLANTINE & Aléxis NOUSS. Lê métissage.Paris: Flammarion, 1997. (Dominós).

[9] Frederik BARTH. Grupos étnicos e suas fronteiras. In: Philippe POUTIGNAT & Jocelyne STREISS-FENART. Teorias da etnicidade. Trad. Élcio Fernandes. São Paulo: Edunesp, 1998.

[10] Octavio PAZ. Os filhos do barro.Trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p.25.

[11] Manoel de BARROS. Para encontrar o azul eu uso pássaros. Campo Grande, MS: Saber Sampaio Barros Ed. Ltda., 1999.